Dermatologia felina
Coceira e queda de pelo em gatos: o que o excesso de lambida está dizendo
Boa parte dos gatos com coceira nunca é vista se coçando. Eles se lambem. Lamber faz parte da rotina de qualquer gato, e é isso que faz o excesso passar despercebido. O tutor costuma perceber o resultado, não o comportamento: falhas no pelo, bolas de pelo mais frequentes, feridinhas que aparecem do nada.
Conteúdo em revisão técnica
Este texto foi redigido a partir de literatura de dermatologia veterinária e ainda aguarda a revisão da veterinária responsável. Ele não está listado nos buscadores e não substitui uma consulta. Para orientação sobre o seu pet, agende uma avaliação presencial.
Pendências para publicação: revisão clínica da veterinária responsável.
O gato coça escondido
Em dermatologia felina, "meu gato não coça" não descarta coceira. Muitos gatos se lambem longe do tutor, principalmente à noite, e a língua do gato remove pelo com eficiência. O resultado é uma área falhada, com a pele aparentemente normal por baixo.
O que conta, então, é o que a pele e o pelo mostram: a distribuição das falhas, o estado das pontas dos pelos, a presença de crostas pequenas que se sentem com a mão antes de serem vistas.
Vale também um ponto de contexto: gatos não são cães pequenos. Os padrões de lesão, as causas mais frequentes e o manejo durante o exame são diferentes. A dermatologia felina merece atenção própria.
Quatro padrões, e por que eles importam
A pele do gato responde a causas muito diferentes com um número pequeno de padrões. Reconhecer o padrão não dá o diagnóstico, mas organiza a investigação e evita que o caso seja rotulado cedo demais.
- Falhas simétricas por lambedura
- áreas sem pelo na barriga, na face interna das coxas e nos flancos, com a pele por baixo em geral íntegra. O pelo não caiu: foi removido pela língua.
- Dermatite miliar
- crostas pequenas espalhadas pelo corpo, com frequência ao longo do dorso e do pescoço. Costumam ser percebidas ao passar a mão, antes de serem vistas.
- Feridas na cabeça e no pescoço
- escoriações que o gato provoca coçando com as patas traseiras. Costumam ser as lesões mais intensas e as que mais preocupam o tutor.
- Complexo granuloma eosinofílico
- placas, nódulos ou úlceras, que podem aparecer no abdome, nas coxas, no lábio superior e dentro da boca.
O que costuma estar por trás
- Alergia à picada de pulga
- uma das causas mais frequentes, inclusive em gatos que não saem de casa e mesmo quando nenhuma pulga é encontrada. Em um gato alérgico, poucas picadas bastam. E ele remove as pulgas ao se lamber.
- Parasitas de pele e de ouvido
- ácaros do ouvido, sarna notoédrica e Cheyletiella, entre outros. Alguns deles também afetam pessoas da casa.
- Dermatofitose
- a chamada micose. Em gatos pode ocorrer com pouca ou nenhuma coceira e é transmissível a pessoas e a outros animais. Por isso o diagnóstico laboratorial e a orientação de manejo da casa são parte essencial da consulta.
- Alergia alimentar
- coceira sem estação, com frequência concentrada na cabeça e no pescoço, às vezes acompanhada de sinais digestivos.
- Síndrome atópica felina
- reação a alérgenos do ambiente. É o equivalente felino da dermatite atópica, com apresentação própria.
- Causas hormonais e sistêmicas
- menos comuns na pele do gato do que na do cão, mas presentes. O hipertireoidismo altera a qualidade da pelagem, e doenças internas mudam o comportamento de se lamber.
- Dor e questões comportamentais
- gatos lambem por desconforto que não vem da pele (dor abdominal, urinária ou articular) e também por estresse. Essa hipótese entra depois que as causas de pele foram descartadas, nunca antes.
Como o gato é investigado
- História detalhada
- acesso à rua, quantos animais moram na casa, qual antiparasitário é usado e quando, dieta completa, mudanças recentes na rotina e no ambiente.
- Exame de toda a pele
- inclusive das regiões que o gato esconde: barriga, face interna das coxas, base da cauda, interior das orelhas e a boca.
- Tricograma
- o exame que mais decide em gato. Pontas de pelo quebradas confirmam que a falha vem da lambedura, mesmo quando o tutor nunca viu o animal se lamber.
- Raspado e citologia
- para procurar parasitas e para identificar bactérias e leveduras em excesso.
- Pesquisa de dermatófitos
- praticamente obrigatória quando há falhas em gato jovem, em gato resgatado ou em casa com vários animais.
- Teste de dieta e investigação sistêmica
- indicados conforme o padrão encontrado e os sinais fora da pele.
Um cuidado é específico do gato: o manejo durante a consulta. Um gato tenso não permite avaliar a pele direito, e um exame mal feito custa uma consulta inteira.
Quando procurar um especialista
- Falhas no pelo que aumentam ou aparecem em novos lugares.
- Crostas espalhadas pelo dorso e pelo pescoço.
- Feridas na cabeça, no pescoço ou nas orelhas.
- Lesões nos lábios ou dentro da boca.
- Bolas de pelo com frequência muito maior que o habitual.
- Outro animal da casa, ou uma pessoa, apresentou lesões de pele.
- Já houve mais de um tratamento sem resposta duradoura.
Perguntas frequentes
- Meu gato não sai de casa. Ainda pode ser pulga?
- Pode. Pulgas entram na casa em sapatos, roupas e em outros animais, e um gato alérgico reage a pouquíssimas picadas. Além disso, gatos removem as pulgas ao se lamber. Não encontrar pulga não descarta a hipótese.
- Gato lambendo a barriga até ficar pelado é estresse?
- Pode ser, mas essa é a última hipótese e não a primeira. Antes de atribuir o quadro a comportamento, é preciso descartar parasitas, infecção, alergia e dor. Fechar o diagnóstico em "estresse" sem essa investigação costuma custar meses de tratamento que não resolve.
- Micose de gato passa para pessoas?
- A dermatofitose é transmissível a pessoas e a outros animais. Por isso a confirmação laboratorial e as orientações de manejo do ambiente fazem parte da consulta, e não são um detalhe secundário.
- Vocês atendem gatos?
- Sim. O atendimento é para cães e gatos, sempre presencial, no consultório em São José, na Grande Florianópolis.
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