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Dermato Animal - Dermatologia Veterinária
ago. de 20269 min de leitura

Cachorro perdendo pelo dos dois lados: quando a queda é hormonal

Quando o pelo some do mesmo jeito à direita e à esquerda, e o cão não coça, a hipótese muda de lugar. Sai da pele e vai para o que circula no sangue.

Cachorro de lado, onde tem pelos que evidentemente foram perdidos por conta da alergia

Um cachorro perdendo pelo dos dois lados do corpo, na mesma altura e com desenho parecido à direita e à esquerda, raramente está com alergia. Simetria é o achado que empurra a investigação para dentro do organismo, porque só uma coisa alcança todos os folículos ao mesmo tempo e da mesma forma: o que circula no sangue. Alergia, pulga e infecção de pele produzem outro desenho, irregular, com coceira e com lesão que o próprio cão criou.

Atendemos exclusivamente dermatologia e endocrinologia veterinária em São José, e essa é uma das descrições mais frequentes na recepção. Costuma vir assim: "ele está pelado dos dois lados, mas não coça nada". Às vezes depois de meses de tratamento para alergia sem resposta.

Este texto serve para você reconhecer o padrão e chegar à consulta com a informação certa. Ele não fecha diagnóstico. Nenhum texto fecha.

O que a simetria está dizendo

Pele é um órgão exposto. Quando o problema vem de fora, o dano se distribui de forma desorganizada, do jeito que o cão encostou, se deitou ou se coçou. Uma pata mais que a outra. Uma orelha antes da outra.

Quando o problema vem de dentro, a lógica se inverte. O hormônio chega igual em todo canto do corpo, e o folículo responde igual. O resultado é aquela imagem que assusta o tutor quando ele finalmente olha o cão de cima: os dois flancos rareando juntos, como se alguém tivesse desenhado.

Nem toda queda simétrica é hormonal, e vale dizer isso logo. Existem alopecias genéticas de raça e existem quadros que não se encaixam em nada disso no primeiro exame. Mas a simetria muda a ordem das hipóteses, e mudar a ordem é o que economiza meses.

Pelo arrancado e pelo que não nasceu

Essa é a diferença prática mais útil que um tutor pode aprender a observar em casa.

Pelo que cai porque o cão coçou tem sinal de violência. A área fica irregular, com pele avermelhada por baixo, às vezes com crosta, às vezes com o fio quebrado no meio em vez de ausente. E o cão faz alguma coisa: lambe, morde, esfrega no tapete, acorda de madrugada. Você vê o esforço acontecendo.

Pelo que simplesmente não cresce é silencioso. A pele por baixo costuma estar íntegra, sem vermelhidão, às vezes mais escura que o normal, às vezes mais fina ao toque. O pelo sai fácil quando você passa a mão, sem o cão reclamar. E existe um detalhe que quase todo mundo conta sem perceber a importância: o cão foi tosado meses atrás e aquela região nunca mais voltou ao que era. Oito, dez, doze semanas depois, o desenho da máquina ainda dá para ver.

Esse relato é um dos mais valiosos da consulta. Se você tem foto antiga, leve.

Onde a falha costuma aparecer

O padrão hormonal tem regiões prediletas, e elas se repetem bastante:

  • flancos, os dois, muitas vezes com borda razoavelmente definida;
  • tronco e lateral do corpo, ralando de forma difusa antes de falhar de vez;
  • cauda, que perde volume e fica com aspecto de cordão;
  • ponte do nariz e ao redor dos olhos, região que muita gente atribui a atrito de focinheira ou de comedouro;
  • pescoço, cabeça e patas poupados, mantendo pelo normal enquanto o tronco esvazia, o que dá a impressão de que o cão está usando um colar.

Cabeça e pernas intactas enquanto o meio do corpo rareia é uma imagem bem característica. Não prova nada sozinha, mas é o tipo de achado que pede investigação hormonal em vez de mais uma troca de ração.

O pelo que resta também muda. Fica seco e opaco, sem aquele brilho que o tutor lembra de dois anos atrás.

Coça ou não coça

Essa pergunta divide os casos em dois caminhos diferentes de investigação, e é a primeira coisa que perguntamos.

Cão que perde pelo coçando muito está, na maioria das vezes, em território alérgico, parasitário ou infeccioso. Aí entram dermatite atópica, alergia à picada de pulga, sarna e infecção de pele. Se o seu caso é esse, o assunto útil para você é outro: a pata que ele lambe até ficar vermelha, a coceira que aparece de madrugada ou a pulga que na nossa região não tira férias.

Cão que perde pelo sem coçar é o caso deste artigo. Falha que aumenta devagar, ao longo de meses, sem incômodo aparente, é o retrato mais comum de causa endócrina.

Existe uma armadilha no meio dos dois. Cão com problema hormonal fica com a pele mais vulnerável e acaba desenvolvendo infecção secundária, por bactéria ou por levedura. Essa infecção coça. Então o animal chega coçando, trata-se a coceira, ele melhora por algumas semanas e volta. O ciclo se repete até alguém perguntar por que aquela pele infecciona tanto. Se isso soou familiar, o caminho é a otite que trata, melhora e retorna e o cheiro que volta poucos dias depois do banho.

Os sinais que ninguém conecta com pelo

Na consulta, a informação que vira a chave quase nunca é sobre pele. É sobre rotina. Vale prestar atenção nos meses anteriores e anotar se apareceu alguma coisa da lista:

  • bebe muito mais água do que bebia, e o pote precisa ser enchido mais vezes;
  • faz xixi em mais quantidade, ou voltou a escapar dentro de casa;
  • come com uma fome que não tinha antes, procurando comida o tempo todo;
  • engordou sem mudança na alimentação, ou a barriga cresceu enquanto o resto do corpo parece o mesmo;
  • ficou mais parado, cansa rápido no passeio, dorme mais;
  • procura sol e lugar quente, entra debaixo do cobertor mesmo em dia ameno;
  • feridas pequenas demoram semanas para fechar;
  • áreas de pele escureceram, ficando acinzentadas ou quase pretas onde antes eram claras;
  • pele mais fina, com veias mais visíveis na barriga;
  • otite e infecção de pele que voltam sempre.

Nenhum item sozinho aponta para uma doença específica. Juntos, e ao lado da queda simétrica, eles compõem o quadro que faz o exame hormonal virar o próximo passo lógico.

Duas frases que a recepção ouve muito: "ele sempre foi preguiçoso mesmo" e "achei que fosse a idade". Podem ser. Também podem ser metabolismo desacelerando há um ano e meio.

Raça e idade entram na conta

Não porque raça feche diagnóstico, e sim porque muda a probabilidade de cada hipótese.

Golden retriever, labrador, dobermann, boxer, cocker e dachshund aparecem com frequência entre os quadros de tireoide, geralmente de meia idade em diante. Poodle, yorkshire, beagle e schnauzer costumam figurar entre os cães com excesso de cortisol, em geral mais velhos. Spitz alemão, chow chow, husky e malamute têm uma alopecia própria, de pelo que não volta a crescer, que exige descartar as causas anteriores antes.

Falha simétrica em cão adulto ou idoso pesa mais para endócrino. Em filhote, o raciocínio começa em outro lugar.

O que não tem cara de caso hormonal

Vale reconhecer o contrário também, para você não passar semanas na hipótese errada.

Falha única, redonda, de borda bem marcada, com descamação ou crosta em cima, não tem o desenho endócrino típico. Esse formato costuma levantar suspeita de dermatófito, de demodiciose ou de infecção bacteriana localizada, e cada um deles tem exame próprio para confirmar. Alguns são transmissíveis para outros animais e para pessoas da casa, o que torna a confirmação ainda mais importante.

Também não combinam com hormônio a falha que aparece de uma semana para a outra, a que vem com pus, a que dói ao toque e a que se concentra num ponto só depois de uma picada.

E no gato a lógica é bem diferente. Falha simétrica em felino frequentemente é o resultado de lambedura excessiva feita escondido, que o tutor nunca presencia, e o assunto ali costuma começar em outro lugar. Se o caso é de gato, comece por ferida e falha no pescoço do gato.

Como a investigação costuma ser

Não existe rota única, porque cada caso pede uma ordem diferente. O que se repete é a lógica.

Começa por história detalhada, com a linha do tempo do que apareceu primeiro, e por exame dermatológico do corpo inteiro, não só da área que falhou. Em seguida vêm os exames de pele que descartam o que é local, como raspado, avaliação do fio, citologia e pesquisa de fungo. Só depois de organizar esse terreno é que faz sentido dosar hormônio, porque exame hormonal pedido no escuro produz resultado difícil de interpretar e leva a decisões ruins.

A partir daí, conforme a suspeita, entram exames de sangue gerais, avaliação da tireoide, testes específicos para cortisol e, em parte dos casos, exame de imagem do abdome. Biópsia de pele fica reservada para os quadros que não se resolvem com o resto.

Duas coisas honestas para fechar. Pelo cresce devagar, e mesmo com a causa identificada e controlada a recuperação da pelagem se mede em meses. E nem toda alopecia simétrica ganha um nome definitivo no primeiro ciclo de exames. Alguns casos exigem reavaliação depois, e dizemos isso na consulta em vez de inventar um diagnóstico.

Se quiser saber como funciona esse atendimento antes de marcar, escrevemos separadamente sobre como é a consulta com dermatologista veterinário.

Se o tratamento de alergia já dura meses

Cão em tratamento antialérgico prolongado, com melhora parcial ou nenhuma, e falha simétrica que continua avançando, pede revisão da hipótese inicial. Não porque o colega que atendeu antes tenha errado. Alergia é mesmo a primeira suspeita quando o cão coça, e a revisão só se impõe quando o tempo mostra que a resposta não veio.

Duas leituras ajudam aqui: o que fazer quando o tratamento de alergia não funciona e, se a suspeita recair sobre a comida, como é o teste de alergia alimentar de verdade.

Para onde ir a partir daqui

Se isso descreveu o seu cão, os dois caminhos mais prováveis estão detalhados em textos próprios:

Uma ressalva que repetimos sempre: não avaliamos pele por foto nem por descrição de mensagem. Quadros de origem bem diferente se parecem demais na imagem, e tratar a hipótese errada é o que transforma um caso simples em caso arrastado.


Seu cão está perdendo pelo dos dois lados e ninguém encontrou o motivo?

Quando a queda é simétrica e o cão não coça, a resposta costuma estar fora da pele. Aqui a mesma profissional avalia dermatologia e endocrinologia na mesma consulta, investiga a causa, monta o protocolo para aquele animal e acompanha a evolução.

Falar com a recepção · Atendimento presencial para cães e gatos em São José e na Grande Florianópolis.

Dra. Dyba · CRMV-SC 10128

Médica veterinária especialista em dermatologia e endocrinologia, com atuação exclusiva nessas duas áreas para cães e gatos em São José, na Grande Florianópolis. Participa da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV) e conduz o atendimento clínico da Dermato Animal.

Este texto é informativo e não substitui a consulta presencial. Não avaliamos pele por foto nem por descrição.

Perguntas frequentes

Meu cachorro está perdendo pelo dos dois lados mas não coça. Isso é normal?

Não é esperado, e é justamente a combinação que costuma indicar causa interna. Queda de pelo sem coceira, distribuída de forma parecida nos dois lados do corpo, aparece com frequência em alterações hormonais como as de tireoide e as de cortisol. A ausência de coceira não significa que dá para esperar. Significa que o exame precisa ir além da pele.

Pode ser a ração?

Alergia alimentar existe, mas o quadro clássico dela é coceira, não falha simétrica silenciosa. Trocar de ração por conta própria várias vezes atrapalha bastante a investigação depois, porque mistura os efeitos e impede a comparação. Se a suspeita alimentar for real, existe um protocolo de teste com regras claras, e ele funciona muito mal quando a dieta já foi mudada três vezes antes da consulta.

O pelo volta a crescer?

Depende inteiramente da causa e do quanto o folículo foi afetado. Quando a origem é identificada e o quadro responde ao acompanhamento, o pelo geralmente melhora, e isso leva meses porque o ciclo de crescimento é lento. Existem quadros em que a pelagem não retorna ao que era. Prometer resultado antes de saber o diagnóstico seria desonesto.

Meu cão foi tosado e o pelo nunca mais cresceu naquela região. Tem relação?

Pode ter, e é uma informação importante para levar à consulta. Pelo que não retorna semanas depois da tosa sugere que o folículo está parado, e folículo parado é um achado que aparece em várias condições hormonais e em algumas alopecias de raça. Leve fotos de antes e de depois, com data se possível.

Ele tem otite toda hora e agora está perdendo pelo. Os dois problemas se conversam?

Podem conversar, sim. Infecção de repetição, na orelha ou na pele, é uma das formas mais comuns de uma alteração hormonal se manifestar antes de alguém pensar em hormônio. O organismo perde parte da capacidade de manter aquele equilíbrio, e a bactéria ou a levedura que já vivia ali passa a se multiplicar sem freio. Tratar só a otite resolve o episódio e não impede o próximo.