O berne em cachorro é uma larva sob a pele que forma um caroço com um furinho. A bicheira é uma ferida tomada por larvas e pede atendimento veterinário imediato. Veja como diferenciar e por que não tirar em casa.
Berne e bicheira em cachorro: como diferenciar e por que não tirar em casa

O berne em cachorro é a larva da mosca Dermatobia hominis, que se instala sob a pele e forma um caroço com um furinho. A bicheira é outro problema: uma ferida aberta tomada por larvas que comem o tecido vivo. Os dois pedem veterinário, e nenhum deve ser tirado em casa.
Se você viu larvas se mexendo numa ferida do seu cão, ou uma ferida que cresce, cheira mal e solta secreção, procure atendimento veterinário imediato. Vá a um serviço de emergência veterinária: bicheira não espera a consulta de pele.
A Dermato Animal é um consultório de dermatologia, não um serviço de emergência. Abaixo, como diferenciar os dois quadros e por que não mexer em casa.
O que é berne em cachorro?
Berne é o nome popular de uma miíase, a infestação do corpo por larvas de mosca. A causadora é a mosca-do-berne, que ocorre do sul do México ao norte da Argentina.
Segundo o Manual Veterinário MSD, a larva aparece em bois, porcos, gatos, coelhos, pessoas e outros animais. Os mais atingidos são os bovinos e os cães.
A mosca-do-berne não põe os ovos direto no cão. O manual explica que ela cola os ovos em outros insetos, na maioria mosquitos e moscas. Quando esse inseto pousa para se alimentar num animal de sangue quente, os ovos se abrem.
A larva entra na pele em poucos minutos. Ali, cresce de 4 a 18 semanas numa cavidade com um orifício por onde respira. Madura, sai, cai no chão e vira pupa.
Como identificar o berne no cachorro?
O sinal típico é um caroço sob a pele com um furinho, o orifício de respiração da larva. Segundo o manual MSD, a entrada da larva causa dor e inflamação local, e aos poucos se forma pus.
Num inquérito publicado em 2003, veterinários de 190 clínicas e consultórios do Rio de Janeiro responderam sobre os casos de berne em cães em 2000. O dorso e o lombo foram as regiões mais citadas, por ficarem ao alcance das moscas.
Os mais citados foram cães de sítios e quintais, perto de mata ou de animais de criação.
Nem toda bolinha é berne. A piodermite, uma infecção por bactéria, também forma bolinhas e pontos de pus, como explicamos em cachorro com bolinhas na pele. Quem diferencia é o veterinário, no exame.
O que é bicheira em cachorro?
Bicheira é a miíase de ferida. Nas Américas, a principal causadora é a Cochliomyia hominivorax, a mosca-da-bicheira. Segundo a Embrapa, ela põe os ovos nas bordas de ferimentos de mamíferos de sangue quente.
Segundo o Manual Veterinário MSD, cada fêmea põe de 200 a 400 ovos na borda da ferida. As larvas nascem em 10 a 21 horas e comem tecido vivo por 5 a 7 dias.
Não precisa ser uma ferida grande. Num alerta de 2026 sobre casos em pessoas na América Central e no México, a Organização Pan-Americana da Saúde (OPAS) lembra que até esfolados, picadas de inseto e pequenos cortes de cirurgia podem permitir a infestação.
E a ferida chama mais moscas. Segundo a Embrapa, ela solta um odor que atrai novas posturas, inclusive de outras espécies de mosca.
Num inquérito publicado em 2002, veterinários de 34 clínicas da Zona Sul do Rio responderam sobre os casos de bicheira em cães em 2000. O ouvido foi a região mais citada, e otite e dermatite estiveram entre as origens mais citadas da ferida.
Os autores concluíram que prevenir a otite ajuda a evitar a bicheira. Vale também para a otite de repetição em cachorro, que trata, melhora e volta.
Berne ou bicheira: como diferenciar?
| Berne | Bicheira | |
|---|---|---|
| Mosca | Dermatobia hominis | Cochliomyia hominivorax, e outras que chegam depois |
| Como a larva chega | Ovo levado por um mosquito ou outra mosca | Ovo posto na borda de uma ferida |
| Como aparece | Caroço sob a pele, com um furinho | Ferida aberta, com larvas visíveis e odor forte |
| Tempo da larva no corpo | Semanas | De 5 a 7 dias, com novas posturas por cima |
| O que fazer | Avaliação veterinária, sem espremer | Atendimento veterinário imediato |
Fontes da tabela: manual MSD, Embrapa e CDC. Ela serve para entender, não para decidir em casa.
Por que não espremer nem tirar o berne em casa?
Espremer é o primeiro impulso, mas não é o caminho. A versão para tutores do Manual Veterinário MSD trata do caroço de larva de mosca em cães, sobretudo do Cuterebra, da América do Norte, e cita também a Dermatobia.
Para esse caroço, o manual orienta não espremer. A larva pode se romper, o que pode levar a infecção secundária e, mais raramente, a uma reação alérgica grave, a anafilaxia.
O caroço suspeito deve ser explorado com cuidado pelo veterinário, diz o mesmo texto. E a cicatrização pode ser lenta depois da retirada.
Puxar com pinça ou passar receita caseira também fica de fora: como e quando tirar é decisão do veterinário.
Berne sai sozinho?
No ciclo natural, sim: a larva madura sai da pele e cai no chão. Mas isso leva de 4 a 18 semanas, segundo o manual MSD. Nesse tempo, o caroço pode doer, inflamar e soltar pus.
E a larva que sai não some: no chão, vira pupa e depois mosca, segundo o CDC.
Esperar não é um plano. O caroço merece avaliação veterinária logo que aparece.
Bicheira em cachorro pode matar?
Pode, e evolui rápido. Na versão para tutores, o Manual Veterinário MSD explica que a ferida pode crescer muito com novas infestações e que, sem tratamento, a bicheira costuma levar o animal à morte.
Com base na literatura, o inquérito do Rio de 2002 descreve o caminho: o animal fica inquieto, para de comer e emagrece. A morte pode vir de toxinas no sangue, de hemorragia ou de infecção bacteriana.
Por isso, ao ver larvas numa ferida, não tente limpar nem tirar em casa. Segundo o manual MSD para tutores, a limpeza e a retirada são trabalho do veterinário. Na maioria dos casos, o cão precisa de sedação ou anestesia.
A versão profissional do manual lembra que as larvas da bicheira podem estar no fundo da ferida. O que se vê na superfície não é tudo, e nenhum produto passado por cima substitui esse atendimento.
A vontade de resolver rápido em casa é compreensível, mas o caminho seguro é o serviço de emergência.
Quando é emergência
Procure o serviço de emergência veterinária na hora se notar:
- larvas visíveis numa ferida, mesmo que sejam poucas, inclusive no ouvido, na boca ou na região do ânus;
- ferida que aumenta, solta secreção ou tem cheiro forte;
- cão com ferida que fica inquieto ou para de comer.
Os sinais vêm do manual MSD, da Embrapa e do inquérito do Rio. Em outros problemas de pele, o texto sobre cachorro coçando de noite separa o que é urgência do que pode esperar.
Berne e bicheira passam para humano?
Pessoas também podem ter berne e bicheira. Segundo o CDC, agência de saúde dos Estados Unidos, a Dermatobia hominis é a principal mosca-do-berne em humanos. A mosca-da-bicheira também infesta pessoas, mas os casos são incomuns.
Segundo o CDC, na pessoa o berne começa como no cão: os ovos chegam num mosquito, e a larva entra na pele quando ele pica. A OPAS lembra que a miíase não passa de pessoa para pessoa.
Para a OPAS, um animal com bicheira indica que a mosca circula ali, com risco potencial para as pessoas. Se alguém da casa tiver uma ferida com larvas, a OPAS orienta procurar atendimento médico imediato.
Como prevenir berne e bicheira no verão?
A mosca-da-bicheira gosta de calor. Segundo a OPAS, ela em geral não sobrevive em clima frio e, no calor, completa o ciclo em cerca de três semanas.
No inquérito do Rio de 2002, janeiro, dezembro, fevereiro e novembro foram os meses mais citados. Os autores pedem prevenção reforçada nos meses quentes.
O Manual Veterinário MSD, na versão para tutores, lista os cuidados que reduzem o risco de bicheira:
- Ferida aberta vai ao veterinário. Em cães mais velhos, as feridas de mordida costumam ser o ponto de partida.
- Pelo limpo. Pelo embolado e sujo de fezes atrai as moscas. Não deixe urina e fezes acumularem no corpo do cão.
- Quintal limpo. Recolha as fezes todo dia e lave os locais de xixi, principalmente nos meses quentes. Tampe o lixo e tire restos orgânicos e água parada.
- Telas, quando possível, para manter o cão num lugar protegido das moscas.
- Filhote recém-nascido merece atenção ao umbigo, que atrai moscas enquanto cicatriza.

Duas feridas comuns merecem olhar atento. O hot spot em cachorro é uma ferida úmida que o próprio cão abre ao lamber e morder. E a ferida da picada, como explicamos em carrapato em cachorro, pode abrir caminho para a bicheira.
Repelente ou produto preventivo contra moscas é decisão do veterinário.
A ferida fechou, mas a pele não ficou boa. E agora?
Depois da retirada das larvas, siga as orientações de quem fez o atendimento, como pede o manual MSD.
Às vezes, o que fica é outro problema. Falha de pelo, crosta ou coceira no lugar da ferida merece avaliação. Também vale investigar a causa quando a bicheira volta, como no ouvido de um cão com otite que não se resolve.
Para quem está em São José e na Grande Florianópolis, a avaliação com dermatologista veterinário em São José é presencial, no consultório em Barreiros.
Fontes consultadas
Fontes conferidas em 3 de novembro de 2026.
- Panadero-Fontán R. Dermatobia hominis Hypodermiasis. MSD Veterinary Manual, revisão de setembro de 2022, atualizada em setembro de 2024. msdvetmanual.com
- Swiger SL. New World Screwworm. MSD Veterinary Manual, revisão de setembro de 2025. msdvetmanual.com
- Hendrix CM. Flies and Mosquitoes of Dogs. MSD Veterinary Manual, versão para tutores, atualizada em junho de 2026. msdvetmanual.com
- CDC. DPDx: Myiasis, revisada em 6 de junho de 2024. cdc.gov
- OPAS/OMS. Alerta Epidemiológico: miíase causada por Cochliomyia hominivorax na Região das Américas, 16 de outubro de 2026. paho.org
- Oliveira MCS e colaboradores. Manutenção de culturas in vitro da mosca da bicheira, Cochliomyia hominivorax. Embrapa Rondônia, Comunicado Técnico 339, março de 2009. infoteca.cnptia.embrapa.br
- Cramer-Ribeiro BC e colaboradores. Inquérito sobre os casos de miíase por Cochliomyia hominivorax em cães da zona sul do município do Rio de Janeiro no ano 2000. Braz J Vet Res Anim Sci, 2002. revistas.usp.br
- Cramer-Ribeiro BC e colaboradores. Inquérito sobre os casos de miíase por Dermatobia hominis em cães das zonas norte e oeste do município do Rio de Janeiro no ano 2000. Braz J Vet Res Anim Sci, 2003. revistas.usp.br
O berne ou a bicheira passaram, mas a pele do seu cão não ficou boa?
Falha de pelo, crosta, coceira ou otite que volta depois do atendimento merecem investigação. Aqui investigamos a causa, montamos o protocolo para aquele animal e acompanhamos a evolução, com foco exclusivo em dermatologia e endocrinologia veterinária.
Falar com a recepção · Atendimento presencial para cães e gatos em Barreiros, São José, e para toda a Grande Florianópolis. Em caso de emergência, procure um serviço de emergência veterinária.
Dra. Dyba · CRMV-SC 10128
Médica veterinária especialista em dermatologia e endocrinologia, com atuação exclusiva nessas duas áreas para cães e gatos em São José, na Grande Florianópolis. Participa da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV) e conduz o atendimento clínico da Dermato Animal.
Este texto é informativo e não substitui a consulta presencial. Não avaliamos pele por foto nem por descrição.
Perguntas frequentes
Berne em cachorro sai sozinho?
No ciclo natural, a larva madura sai da pele e cai no chão. Mas isso leva de 4 a 18 semanas, segundo o Manual Veterinário MSD. Nesse tempo, o caroço pode doer, inflamar e soltar pus. No chão, a larva vira pupa e depois mosca. Por isso, esperar não é um plano: o caroço merece avaliação veterinária logo que aparece.
Como tirar berne de cachorro?
Não tire em casa. Na versão para tutores, o Manual Veterinário MSD orienta não espremer o caroço formado por larva de mosca em cães. A larva pode se romper e causar infecção ou, mais raramente, uma reação alérgica grave. Puxar com pinça ou usar receita caseira também fica de fora. A retirada é feita pelo veterinário, depois do exame.
Bicheira em cachorro pode matar?
Pode. Na versão para tutores, o Manual Veterinário MSD explica que, sem tratamento, a bicheira costuma levar o animal à morte. As larvas comem tecido vivo, e a ferida atrai mais moscas. Ao ver larvas numa ferida, procure na hora um serviço de emergência veterinária e não tente limpar nem tirar em casa.
Pessoas também podem ter berne e bicheira?
Sim, segundo o CDC. No berne, os ovos chegam à pessoa num mosquito, como no cão. A OPAS lembra que a miíase não passa de pessoa para pessoa e que um animal com bicheira indica que a mosca circula ali. Se alguém da casa tiver uma ferida com larvas, a OPAS orienta procurar atendimento médico imediato.
Como saber se é berne ou bicheira?
O berne costuma aparecer como um caroço sob a pele com um furinho, por onde a larva respira. A bicheira é uma ferida aberta, com larvas visíveis e odor forte. Quem confirma é o veterinário, no exame. Se houver larvas numa ferida, não espere: procure atendimento veterinário imediato.
