Pular para o conteúdo
Dermato Animal - Dermatologia Veterinária
set. de 20267 min de leitura

Hot spot em cachorro: a ferida úmida que aparece do dia para a noite

De manhã não tinha nada e, à noite, havia uma área vermelha, molhada e sem pelo do tamanho de uma moeda. O hot spot cresce rápido, dói e quase sempre tem outro problema por trás.

Golden retriever com uma lesão vermelha e úmida no pescoço, abaixo da orelha

O que é hot spot em cachorro

Hot spot em cachorro é o nome popular da dermatite úmida aguda, também chamada de dermatite piotraumática. É uma ferida úmida, vermelha, brilhante e sem pelo, que aparece de repente e pode dobrar de tamanho em poucas horas. Costuma doer, e o cão pode não deixar ninguém tocar.

O nome em inglês quer dizer "ponto quente". A área fica quente ao toque e parece acender do nada. Por isso tantos tutores descrevem uma ferida que apareceu do nada no cachorro, de um dia para o outro.

"Piotraumática" junta duas ideias. Trauma, porque é o próprio cão que machuca a pele ao lamber e coçar. E pus, porque a ferida pode infeccionar.

Como o hot spot se forma

O hot spot é criado pelo próprio cão, em resposta a alguma coisa que coça ou dói. O ciclo é rápido:

  1. alguma coisa provoca coceira ou dor num ponto;
  2. o cão lambe, morde ou coça aquele ponto com insistência;
  3. a pele se machuca, inflama e começa a soltar líquido;
  4. o pelo por cima segura a umidade e o calor;
  5. a inflamação coça e dói mais, e o cão volta a lamber.

Em uma tarde, uma coceira pequena pode virar uma ferida do tamanho da palma da mão.

Área tosada em volta de uma lesão vermelha e úmida no quadril de um cão de pelo longo
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial.

Onde o hot spot costuma aparecer

  • lateral do rosto e embaixo da orelha, muitas vezes junto com otite;
  • pescoço;
  • lateral e parte de trás das coxas;
  • base da cauda, quando a causa é pulga ou glândula anal;
  • quadril e flanco.

Um estudo sueco com 44 cães, publicado na revista Veterinary Dermatology, confirma esse mapa. As áreas mais atingidas foram a bochecha, o pescoço e a lateral da coxa. Cães de até 4 anos apareceram mais, e as raças mais vistas foram rottweiler, pastor alemão e golden retriever.

Cães de pelo denso e subpelo grosso, como golden, pastor alemão e são bernardo, merecem atenção extra. Esse tipo de pelo segura a umidade junto da pele e demora a secar.

Qual é a causa do hot spot?

O hot spot quase nunca é o problema principal. Ele é o resultado de alguma coisa que fez o cão começar a lamber. As causas mais comuns são:

  • pulga, principalmente no cão alérgico à picada. Uma picada basta para começar. Explicamos por que ela aparece o ano inteiro em pulga em cachorro o ano todo;
  • otite, quando o hot spot aparece no rosto ou embaixo da orelha. Se a orelha inflama sempre, vale ler sobre otite de repetição em cachorro;
  • alergia, como a dermatite atópica, a alergia crônica mais comum em cães;
  • glândula anal cheia ou inflamada, quando a lesão está na base da cauda;
  • dor nas articulações ou nos músculos, que o cão tenta aliviar lambendo;
  • pelo úmido embolado depois de banho, chuva ou mar, quando não seca até a pele.

No estudo sueco, uma causa provável foi encontrada ou suspeitada em 31 dos 44 cães. A lógica é a mesma do cão que vive lambendo a pata: a lambedura é um sinal, e o sinal tem origem.

Tratar a ferida sem descobrir a causa resolve o episódio e deixa o próximo pronto para acontecer. Revisões sobre infecção de pele em cães reforçam esse ponto: corrigir a doença de base é o que evita tratamentos repetidos.

Hot spot é mais comum no calor?

Calor e umidade favorecem as duas pontas do ciclo. Aumentam pulga e crises de alergia, e mantêm o pelo molhado junto da pele. Por isso muitos tutores notam o problema no verão.

O estudo sueco foi feito numa região sem pulga circulando o ano todo e não encontrou diferença entre as estações. Uma leitura possível é que o calor pesa porque aumenta as causas.

Na Grande Florianópolis, muitos cães frequentam praia e cachoeira e passam horas com o pelo úmido. Um cuidado simples ajuda: secar bem o cão depois de banho, chuva ou mar, até a pele, e não só por cima. Temos um passo a passo em o que fazer com o cachorro depois da praia.

O que não fazer em casa

É comum querer resolver logo, e algumas atitudes pioram o quadro:

  • não passe pomada, óleo ou creme caseiro na ferida. Pomada oleosa abafa a lesão e segura mais umidade;
  • não use sobra de medicamento de um tratamento anterior;
  • não cubra com curativo fechado por conta própria;
  • não tente tosar ou cortar o pelo em volta se o cão estiver com dor. Ele pode morder. Na consulta, a tosa da região é feita com cuidado, às vezes com sedação leve quando a dor é grande.

O que ajuda é impedir que o cão continue lambendo ou coçando o ponto enquanto aguarda a avaliação. E procurar atendimento no mesmo dia ou no dia seguinte.

Por que não dá para esperar muito

O hot spot cresce rápido e dói. Além disso, alguns casos têm uma infecção mais funda por baixo, dentro da raiz do pelo. Esse quadro se chama foliculite piotraumática.

Por fora, ele se parece com o hot spot comum, mas precisa de tratamento diferente. Um estudo publicado nos Estados Unidos já descrevia essas duas formas ao microscópio. No estudo sueco, 20 dos 44 cães tinham foliculite na biópsia.

A diferença só se confirma no exame. Quanto antes a lesão é tratada, menor ela fica e mais cedo o cão volta a ficar confortável.

Como tratar hot spot em cachorro

O tratamento depende do que o exame mostra. Por isso não existe um remédio único para hot spot. Na consulta, o caminho costuma ser este:

  • avaliação da ferida e do cão inteiro, procurando a causa: pulga, orelha, glândula anal, dor, sinais de alergia;
  • tosa e limpeza da área, para a pele secar e o tratamento chegar onde precisa;
  • citologia, um exame feito na hora, em que uma amostra da ferida é vista ao microscópio para saber se há infecção e de que tipo;
  • plano para aliviar a dor e a coceira e tratar a ferida;
  • plano para a causa, para o hot spot não voltar.

Quando há bactéria, a mais comum é o estafilococo, que vive normalmente na pele do cão. Nos 27 cães do estudo sueco que fizeram cultura, 25 tinham esse germe.

As diretrizes da Sociedade Internacional de Doenças Infecciosas de Animais de Companhia (ISCAID) orientam confirmar a infecção com exame antes de escolher o tratamento. Isso evita remédio desnecessário e ajuda a conter bactérias resistentes.

A ferida costuma melhorar rápido quando o ciclo é interrompido. O que define se ela vai voltar é o que se faz com a causa. Se o hot spot vem junto de coceira que não cede, vale ler por que o tratamento da alergia às vezes não funciona.

Ferida úmida no cachorro: o que mais pode ser?

Nem toda ferida úmida no cachorro é hot spot. Bolinhas espalhadas, algumas com pus, apontam para outros quadros, explicados em cachorro com bolinhas na pele. Ferida que não cicatriza há semanas ou que surgiu depois de briga também pede outra investigação.

Quando procurar atendimento

  • área vermelha e úmida que cresce em horas;
  • cão que não deixa tocar no local;
  • secreção com pus, cheiro forte ou sangramento;
  • apatia, febre ou falta de apetite;
  • hot spot que já aconteceu antes, em qualquer lugar do corpo.

Fontes

  1. Holm BR, Rest JR, Seewald W. A prospective study of the clinical findings, treatment and histopathology of 44 cases of pyotraumatic dermatitis. Veterinary Dermatology, 2004. doi.org/10.1111/j.1365-3164.2004.00421.x
  2. Reinke SI, Stannard AA, Ihrke PJ, Reinke JD. Histopathologic features of pyotraumatic dermatitis. Journal of the American Veterinary Medical Association, 1987. pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/3818419
  3. Hillier A, Lloyd DH, Weese JS, et al. Guidelines for the diagnosis and antimicrobial therapy of canine superficial bacterial folliculitis (Antimicrobial Guidelines Working Group of the International Society for Companion Animal Infectious Diseases). Veterinary Dermatology, 2014. doi.org/10.1111/vde.12118
  4. Loeffler A, Lloyd DH. What has changed in canine pyoderma? A narrative review. The Veterinary Journal, 2018. doi.org/10.1016/j.tvjl.2018.04.002

Apareceu uma ferida úmida que cresce rápido no seu cão?

O hot spot pede atendimento rápido e investigação da causa, para não voltar. Aqui tratamos a lesão, investigamos o que provocou a lambedura e acompanhamos a evolução, com foco exclusivo em dermatologia e endocrinologia veterinária.

Falar com a recepção · Atendimento presencial para cães e gatos em Barreiros, São José, e para toda a Grande Florianópolis.

Dra. Dyba · CRMV-SC 10128

Médica veterinária especialista em dermatologia e endocrinologia, com atuação exclusiva nessas duas áreas para cães e gatos em São José, na Grande Florianópolis. Participa da Sociedade Brasileira de Dermatologia Veterinária (SBDV) e conduz o atendimento clínico da Dermato Animal.

Este texto é informativo e não substitui a consulta presencial. Não avaliamos pele por foto nem por descrição.

Perguntas frequentes

Hot spot em cachorro é contagioso?

Não. O hot spot é uma inflamação criada pelo próprio cão ao lamber e coçar uma área da pele. Ele não passa para outros animais nem para pessoas. Já a causa por trás pode afetar a casa toda. Se for pulga, os outros cães e gatos também precisam de atenção, e o controle vale para todos.

Hot spot sara sozinho?

Raramente. O cão continua lambendo, a pele fica úmida e a lesão costuma crescer em poucas horas. Além disso, alguns casos têm infecção mais funda na raiz do pelo, que se parece com o hot spot comum e precisa de tratamento diferente. O ideal é avaliar no mesmo dia ou no dia seguinte, antes que a área aumente.

O que passar em ferida úmida no cachorro?

Não recomendamos passar nada por conta própria. Pomadas oleosas, cremes e receitas caseiras abafam a ferida e seguram umidade, o que costuma piorar o quadro. Sobras de remédio de outro tratamento também podem atrapalhar. O que ajuda é impedir que o cão continue lambendo e buscar avaliação logo. O tratamento é definido na consulta, depois da limpeza e do exame da lesão.

Por que meu cachorro tem hot spot todo verão?

Porque as causas de fundo costumam piorar no calor e na umidade: pulga, crises de alergia e pelo que fica molhado junto da pele depois de praia, banho ou chuva. Se o hot spot se repete, a ferida é só o sinal. Vale investigar e controlar essa causa, e não apenas tratar cada episódio quando ele aparece.

Qual a diferença entre hot spot e ferida comum?

O hot spot aparece de repente, é úmido, brilhante e dolorido, e costuma crescer rápido sem corte ou trauma evidente. Ele surge da lambedura e da coceira intensas, em geral num ponto só. Uma ferida por trauma costuma ter um motivo claro, como briga ou acidente. Ferida que não cicatriza há semanas pede outra investigação.